Resumo

Neste artigo pretendo discutir como o mal se faz presente nas manifestações do catolicismo popular brasileiro através do estudo das máscaras dos palhaços da folia de Reis. Neste tipo de manifestação religiosa, as máscaras servem aos mais variados fins, desde o louvor à diversão; mas em boa parte dos casos, os mascarados são dotados de natureza fantástica e animalesca, com performances cheias de ações imprevistas, desordeiras e provocadoras do riso que contrastam com o lado sério das celebrações, como é o caso dos palhaços. Presentes em muitas folias do sudeste brasileiro, apesar de serem caracterizados de forma grotesca com máscaras enormes e assustadoras, sendo confundidos com o próprio diabo, eles acompanham os foliões durante sua peregrinação religiosa pelas casas, revivendo a mítica viagem dos reis magos à Belém. A análise se concentrará na performance ritual das máscaras dos palhaços enquanto veículo de presentificação da ação do mal nas folias de Reis, abordando desde os seus aspectos plásticos até os aspectos cênicos, e enfocará também a figura do devoto que, ao utilizar estas máscaras, coloca seu corpo em função de desempenhar “o papel do bicho”, dentro de uma manifestação religiosa. Para a elaboração deste artigo, utilizarei a metodologia de história de vida, centrando a análise no palhaço Gigante do Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, correlacionando com depoimentos e performances de outros palhaços coletados no Espirito Santo, sobretudo na cidade de Muqui.