Resumo

A presença missionária em território angolano teve papel fundamental na configuração identitária de seus habitantes. A maior ou menor adesão ao cristianismo foi determinante para o estabelecimento das identidades contrastivas que caracterizaram as diversas etnias no contexto do colonialismo português em Angola, cujos efeitos foram sentidos inclusive na guerra de libertação iniciada em 1961. Pretendo, pois, discutir de que modo a identidade dos Ovimbundu, habitantes do Planalto Central que constituem a etnia numericamente mais representativa de Angola, esteve intimamente ligada à aceitação da presença missionária em seu território e à assunção de caracteres relacionados ao cristianismo como forma de distinção em relação aos povos circunvizinhos. Não se trata de determinar se os Ovimbundu eram mais ou menos cristãos do que as outras etnias de Angola, mas de buscar compreender de que forma as relações estabelecidas no contexto das missões acabaram por configurar universos simbólicos compartilhados, nos quais determinados códigos de comunicação permitiram aos diversos agentes envolvidos na situação colonial que atribuíssem um lugar a si mesmos e aos outros.