Resumo

Dado o contexto da crescente “ambientalização” na agenda das ciências, supõe-se que os formuladores de políticas envolvendo o tema ambiental se apropriem, na medida do possível, das formulações acadêmicas para embasar suas práticas. Partindo do pressuposto de que esta relação não segue o caminho da neutra apropriação, indaga-se sobre os critérios e os procedimentos aos quais se recorre para acessar e selecionar esse conhecimento com fins de legislar sobre o tema. Além das dificuldades encontradas na passagem da esfera acadêmica à esfera da decisão política, mostrou-se relevante identificar os conhecimentos científicos mais referendados politicamente como “evidentes” sobre o tema da conservação da biodiversidade. Para desenvolver tal reflexão foram selecionadas, como objeto de análise, medidas ambientais relativas à conservação da Mata Atlântica. Pautando-se em entrevistas com cientistas, técnicos e políticos envolvidos na formulação e/ou implementação de duas APAs – sediadas em Nova Friburgo, Rio de Janeiro –, e da Lei da Mata Atlântica, buscou-se reconhecer as diferentes disciplinas acessadas e o quanto estes saberes – política e ciência – são tratados como esferas apartadas. Nesta linha, os estudos de caso nos ajudam a pensar em que medida as políticas públicas procuram se sustentar em evidências científicas para consolidar suas práticas e qual o lugar atribuído ao conhecimento e aos cientistas.