Resumo

A continuidade da atividade pesqueira é explicada normalmente segundo duas vias argumentativas: considerando a transmissão do saber-fazer e do conhecimento sobre o ambiente como condição de acesso aos recursos; ou tomando a pesca enquanto estrutura – simbólica, econômica ou de parentesco – no seio da qual o pescador se reproduz socialmente. Tais perspectivas não enfatizam, porém, a importância das formas de interação entre humanos e não-humanos (artefatos, animais, espíritos etc.) em cada contexto de captura. Ao fixarem de antemão o estatuto do humano, elas restringem sua relação com a técnica à utilidade (o sujeito detém e aplica um saber sobre o ambiente) ou à determinação (a conduta humana é ditada pela técnica, economia ou ambiente) e descuidam-se do valor do engajamento prático na configuração do pescador. Penso que o estudo da pesca enquanto conjunto situado de relações (entre pescadores, artefatos, ambientes, animais, modos de consumo e comercialização do pescado) pode evidenciar o papel da (re)produção de características e propriedades humanas na continuidade e transformação de pescarias específicas. Para propor que a gênese do pescador está associada à ecologia de sua atuação prática, trato de dois grupos de pescadores especializados que coabitam no estuário do rio Amazonas. Eles estão associados a distintos ambientes (lagos e costa), apetrechos (arpão e anzol), relações com os peixes e formas de socialidade – e têm modos de reprodução sociotécnica muito peculiares.