Resumo

O uso da terminologia conhecimento tradicional tem gerado controvérsias, pois se refere às distintas sociedades inscritas no mundo da tradição, as quais não se conformam homogêneas. Além disso, há que se considerar que, em particular, as sociedades costeiras estão historicamente conectadas com a modernidade. Apesar dessa conexão histórica, entende-se que as sociedades pesqueiras artesanais não se dissolvem nos processos modernos recriando-se no tempo sob diferentes formas. O alcance da expressão conhecimento tradicional se apresenta, pois se reporta a saberes que, ainda que ressignificados no fluxo da história, viabilizam o ato de pescar. Baseado nessas considerações, o estudo empreendido buscou captar dimensões do conhecimento tradicional do pescador em localidades litorâneas do Paraná. Evidenciou-se que este conhecimento se expressa na unidade terra-mar-céu, domínios em que se desenvolvem a cognição do pescador artesanal sobre o ciclo da pesca e a náutica pesqueira em distintas dimensões e em sua prática secular. A integração de tais domínios produz uma noção tridimensionada do espaço. Diante dos processos modernizantes que ameaçam a pesca artesanal, propõe-se um diálogo de saberes de distintas matrizes de conhecimento que fertilize um modelo de co-gestão socioambiental em bases sustentáveis, numa recombinação entre tradição e modernidade.