Resumo

Esta pesquisa baseia-se em trabalho de campo etnográfico realizado no povoado quilombola de Samucangaua entre 2004-2005, no município de Alcântara – MA. Analiso os eventos festivos e musicais da Festa de Santa Maria, no contexto das transformações sócio-espaciais e políticas ocorridas nessa comunidade, a partir da instalação do Centro de Lançamentos de Foguetes (CLA), em 1985, quando grande parte do território alcantarense foi concedido à Aeronáutica para fins de utilidade pública. Embora Samucangaua não tenha sido diretamente atingida pela política de remanejamentos compulsórios, o discurso nativo enfatiza a narrativa da Samucangaua de "antes" e de "hoje". O foco de minhas reflexões apóia-se nas diferentes narrativas locais sobre a festa de Santa Maria e como estas suscitam interpretações acerca do impacto da desterritorialização. Etnograficamente, focalizo essas mudanças a partir do embate sobre a convivência de duas formas musicais no mesmo espaço festivo: o ritual afro-religioso da dança “tambor de crioula” e a música reggae veiculada pelas potentes caixas de som das “radiolas”. Através das relações cotidianas mediadas entre os diferentes atores da comunidade por estas duas expressões sociomusicais, analiso como elas reconfiguram as relações intergeracionais, interétnicas e políticas em Samucangaua. Proponho, a partir dessa perspectiva, compreender as estratégias adotadas por esse grupo para dar continuidade à festividade e para afirmar a identidade quilombola.