Resumo

O povo Gurutubano, remanescente de quilombos, ocupa hoje pequenas frações de terra dos seus ancestrais, entre fazendas de pecuária extensiva, na confluência de sete municípios do norte de Minas Gerais. O contexto regional conjuga pelo menos três categorias identitárias - os Gurutubanos, os Caatingueiros e os Geraizeiros - definidas a partir de unidades sócio-naturais (o vale do Gorutuba, a caatinga, o gerais e seus habitantes tradicionais). Os geraizeiros são reconhecidos como agricultores dos planaltos, encostas e vales dominados pelo cerrado, com baixa fertilidade natural e produtividade. Os caatingueiros, ao contrário, ocupam uma região marcada pela facilidade de produção, transporte, proximidade dos centros urbanos e acesso às políticas públicas. Os Gurutubanos representam uma modalidade peculiar de Caatingueiro, de predominância negra e ascendência ligada à recusa da escravidão. Se Catingueiros e Geraizeiros se afirmam “etnicamente” por contraposição, os Gurutubanos são o membro mais olvidado da tríade, provavelmente por representarem uma mácula na imagem de prosperidade interiorizada e reproduzida pelos demais. Não obstante, os Gurutubanos, que antes dos trabalhos de campo não cogitavam da sua condição quilombola, hoje reivindicam a regularização do seu território tradicional, bem como os demais direitos que lhes foram negados historicamente, figurando atualmente como referência regional de protagonismo social.