| A proposta deste artigo é analisar como indivíduos socializados através de um processo ético específico de trabalho, de relações interpessoais e de parentesco, regido pela visão de mundo camponesa, se estruturam dentro de um processo migratório. O ponto central da pesquisa que embasa este artigo foi compreender a ótica pela qual o indivíduo proveniente de sociedades ditas tradicionais, vivencia a experiência do seu deslocamento no espaço social e familiar, elemento referencial da sua construção identitária, para um outro, desconhecido e distante. Partindo da hipótese de que as novas formas de sociabilidades do mundo urbano provocam fissuras na couraça construída pelos processos de socialização instauradores do ser social, ser migrante é estar ocupando espaços diferenciados e, sobretudo, estar quase sempre em um processo de extensa liminaridade. Apesar das estratégias de migração envolverem muitas vezes uma ampla rede de parentes (reais e espirituais) e de amigos e conhecidos, sair de um cotidiano conhecido é um momento único na saga individual de qualquer ser humano. É um momento de tensão entre o indivíduo e o todo social que o circunda. A crescente “desruralização” da população mundial é um exemplo ímpar de como estas duas dimensões se interpenetram e se confundem. Esta mudança brusca, provocada pela modernização dos modos de produção e das forças produtivas, mudou o panorama da sociedade dita complexa, criando infinitas topologias de expressão social e individual |