| Este artigo se constitui na seqüência de um trabalho anterior onde se analisou o código costumeiro camponês adotado em uma área da Chapada dos Veadeiros, região norte de Goiás. Foi a partir deste código que se legitimou a passagem de uma área originalmente livre de domínio, localmente entendida como uma “Terra da Nação” ou “Terra Devoluta”, em um território conquistado e mantido com muita luta, ao longo dos últimos cinqüenta anos, pela Comunidade Quilombola Família Magalhães. Pretende-se agora voltar o olhar para o momento atual e analisar as escolhas e justificativas desta mesma comunidade quilombola em seus momentos de definição frente ao processo de regularização territorial ora desenvolvido pelo INCRA. Com a entrada em campo deste novo agente, assistiu-se a um verdadeiro reordenamento na dinâmica social local. A partir daí, o território tradicional vivo, fluido e dinâmico, de fronteiras porosas que sempre oscilaram devido às relações – perversas, na maioria das vezes – entre os diversos atores sociais envolvidos, precisou ser traduzido em algo novo: os limites oficiais do território a ser titulado. Assistiu-se então a um tenso processo de negociação interna e externa onde a comunidade buscou reforçar antigas alianças e estabelecer novas. Em função disto, os Magalhães foram compelidos a abrir mão de trechos de seu território histórico enquanto buscaram conquistar novas áreas por eles nunca utilizados, como uma inteligente estratégia para isolar e expulsar seus inimigos. |