| Situada em área rural de Paraopeba, região central de Minas Gerais, Pontinha é uma comunidade negra que passou por complexos conflitos territoriais ao longo do século XX. Em decorrência de um dos conflitos mais acirrados, ocorrido em 1990, o poder público local demarcou um pequeno território de 96ha para a comunidade, em uma decisão inédita, flagrantemente baseada na recém promulgada Constituição da República de 1988, principalmente em seus artigos 215 e 216. Este território constitui parte da área de uso comum denominada por eles de “larga”. Em 1995, um antigo fazendeiro vizinho escreveu um livreto intitulado “A História de Pontinha”, de larga circulação no município, através do qual argumenta que os atuais moradores da comunidade são herdeiros de Chico Rei, lendário escravo africano que teria feito fortuna em Ouro Preto, nas Minas Gerais do século XVIII. Esta versão sobre a origem da comunidade foi bem aceita e incorporada pelos moradores, tendo sido matéria de reportagem da Revista IstoÉ em 1998, por exemplo. Além de herdeiros de Chico Rei, atualmente se auto-identificam enquanto quilombolas, mobilizando-se etnicamente a este respeito e buscando a regularização mais ampla de seu território. Baseado em minha dissertação, este trabalho pretende abordar a trajetória desta comunidade em termos dos conflitos fundiários vividos, do surgimento de seu mito de origem e de sua mobilização política enquanto quilombola, enfatizando as conversões identitárias daí decorrentes. |