Resumo

A inserção de ex-escravos na sociedade brasileira após a abolição ensejou a constituição de territórios étnicos por meio de diferentes estratégias de acesso a terra, especialmente no mundo rural. Esse trabalho expõe como essas diferentes estratégias foram articuladas em um raio espacial específico – a região central do estado do RS – originando um conjunto de comunidades de afro-descendentes que possuem cada qual suas bases geográficas delimitadas (embora atualmente fragmentadas), mas conectadas umas às outras por densas redes de parentesco e reciprocidade. Por outro lado, se interpuseram às trocas e relações entre essas comunidades, desde suas origens, alguns mecanismos disjuntivos, como a classificação dos indivíduos em uma escala gradativa de medição do seu grau de negritude ou branqueamento. Ou, especialmente após a integração a redes sócio-técnicas tributárias da revolução verde, o grau de inserção ao mercado formal de trabalho, critério atribuidor de status desiguais entre membros de diferentes comunidades. A tensão entre os dispositivos de reciprocidade e os de disjunção é redimensionada com o processo em curso de auto-reconhecimento como “quilombola”, com tendência à reinvenção de espaços comuns de sociabilidade, viabilizados por essa nova categoria de identificação.