| Procuro fazer uma reflexão em direção à percepção da realidade que não constrói um mundo paralelo no qual o cego existe e pode viver, mas que insere no debate esta própria forma de ser/estar/perceber. As reflexões advindas desta pesquisa encontram um mundo – de videntes e cegos – que não é percebido pelo olho que o apreende, mas numa relação entre os sentidos e o mundo que também se faz perceber. Assim, procuro desconstruir a visão como o sentido que ocupa o topo da hierarquia dos sentidos, na moderna sociedade ocidental, e a realidade totalizante e translúcida como algo fundado e percebido exclusivamente pela própria visão. Se a percepção se faz numa relação entre os sentidos elencados para perceber o mundo e o mundo que também se faz perceber, surge então um desafio à etnografia (que só escreve sobre o que o que viu), pois como escreveremos sobre o cego que não vê e sobre o que, portanto, não vimos; e à teoria antropológica (que se baseia em uma realidade fundada pela linguagem centrada na visualidade), pois como pensaremos sobre formas de classificação que existem, sobre a realidade que também existe, mas não encontra na visão seu eixo de referência. Este trabalho procura refletir sobre estas questões. |