| As recentes controvérsias travadas na mídia brasileira são exploradas visando a identificar a co-existência de diferentes representações sobre o aborto. A contribuição da Teoria Ator-Rede é adotada no presente trabalho tendo em vista a adequação dos aportes teórico-metodológicos dessa teoria para o estudo dos meios de comunicação, vistos como integrantes privilegiados da rede de produção e circulação de saberes sobre o corpo. A análise abrange cerca de 900 peças jornalísticas sobre o aborto, selecionadas dentre material coletado em ampla pesquisa, realizada em 2007, a respeito da polêmica sobre o “direito à vida” na mídia brasileira, nas páginas de quatro importantes veículos da mídia impressa brasileira. Resultados apontam que diferentes atores sociais — representantes da Igreja Católica, de movimentos sociais e de instituições científicas, jurídicas e políticas — em litígio, mobilizam inúmeros elementos, muito heterogêneos entre si, de santos a saberes científicos, passando por laudos médicos, textos acadêmicos, recém-nascidos, fetos, adeptos religiosos, grávidas, embriões e pesquisas de opinião para expor suas representações. Neste texto, demarca-se a co-existência de diferentes e contraditórias representações sobre a prática do aborto, encenadas por atores que promovem alianças em busca do controle e coordenação da ação de elementos, recrutados e mantidos em instáveis alianças dedicadas à defesa de interesses religiosos, científicos e políticos. |