| O cérebro, as neurociências e as doenças hoje relacionadas aos neurotransmissores, como as variantes da ‘depressão’ e da ‘ansiedade’, são presença marcante na cultura ocidental contemporânea. Um ‘cerebralismo’ apresenta-se como uma face específica do crescente fisicalismo que informa nossa visão de mundo; nesta versão, o cérebro ganha uma peculiar autonomia em relação ao corpo, dando origem a um par cérebro/corpo, sem mente ou alma, no qual há uma hierarquia entre estes dois elementos - o primeiro gera conseqüências no segundo. As novas tecnologias de visualização e medicamentalização do cérebro são, por um lado, recebidas como novas terapias das quais muitos podem se beneficiar; por outro, desconfia-se das possíveis conseqüências de uma ‘identidade cerebral’, com acusações de ‘reducionismo’. Exploro nesta comunicação dados de uma etnografia que envolve publicações de neurocientistas em um esforço de “divulgação científica”, publicidade de laboratórios farmacêuticos, cursos e congressos cuja temática resumo aqui pelo termo ‘neuro-psiquiatria-biológica’. Nestes espaços e veículos conforma-se uma Neuro-weltanschauung, que convida a um debate sobre as categorias material/imaterial, saúde/doença, corpo/alma e mesmo corpo/cérebro. |