| No Brasil, até 1969, o tratamento para a hanseníase ou lepra consistia no isolamento de doentes em colônias de leprosos. Em 1986, as colônias foram ‘reestruturadas’. Porém, após anos de confinamento, sem estrutura familiar, financeira ou orgânica, a maioria dos pacientes permaneceu nesses lugares. O Hospital de Dermatologia Sanitária de Goiânia é uma das 31 ex-colônias de leprosos existentes no país, e atende hoje a 91 pacientes internados e 350 ex-pacientes. O corpo dessas pessoas possui várias alterações: membros amputados, enrijecimento das articulações que alteram a locomoção e os movimentos corporais mais corriqueiros. Essas modificações conferem ao corpo um estatuto de anormalidade, o que modifica a condição de ‘ser no mundo’ dessas pessoas. Neste trabalho, pretendo discorrer sobre a dimensão dessa experiência que é de cunho ontológico e se insere na categoria de sofrimento. A partir de dados etnográficos de uma pesquisa que se encontra em fase inicial, pretendo discutir como o sofrimento aparece nas narrativas dessas pessoas. O fio que conduz essa discussão é apontado pelas próprias narrativas, por meio de dois registros discursivos: de um lado o sofrimento aparece nas lembranças da distância dos parentes, no sentimento de pesar decorrente da perda dessas relações; do outro, as referências ao sofrimento surgem sob uma lógica de reivindicações de direitos junto ao Estado, assumindo uma forma construída a partir do ‘eu’. |