| Este trabalho pretende explorar a construção científica do conceito de morte cerebral e maneira como ele foi incorporado na prática médica. Até 1968, o que determinava a morte do corpo era a parada cardíaca. Descobertas como o coma depassé, o ventilar mecânico e técnicas de cirurgias de transplantes de órgãos, possibilitaram a criação do conceito de morte cerebral. A fim de compreender a operacionalização da morte cerebral na prática médica, foram entrevistados médicos que atuam em Unidades de Terapia Intensiva e médicos que pertencem a equipes de transplantes. Verificou-se entre os informantes que a morte cerebral é um conceito ambíguo. Ele é referido como a morte técnica em oposição à morte natural, e representa uma situação de liminariedade, na qual o “ser” nesta condição não é mais o que era antes (uma pessoa, um paciente), mas ainda não adquiriu o status de morto, pois o coração permanece funcionando. O conceito de morte cerebral não está isento de interesses dos atores envolvidos nesta questão. Estes interesses revelam as posições de cada ator no campo médico, e as estratégias usadas para legitimar ou subverter o conceito. Nesse sentido, pretendi contextualizar a morte cerebral enquanto um conceito produzido na esfera científica, demonstrando que ele é datado e localizado social e historicamente. Assim, a morte cerebral só faz sentido na sociedade moderna e ocidental, na qual a ciência tem uma importante centralidade na definição de “verdades”. |