| Este trabalho aborda questões suscitadas na dissertação de mestrado “A Perversão Domesticada: Estudo do discurso de legitimação do BDSM na Internet e seu diálogo com a Psiquiatria”, cujo objeto foi o discurso de legitimação de praticantes de comportamentos sexuais tradicionalmente classificados como perversões pela psiquiatria, denominados “BDSM” por seus adeptos – uma sigla que descreve diversas práticas ou jogos sexuais: B é para Bondage, o par B & D para Bondage e Disciplina. O par D & S para Dominação e Submissão, e o par S & M para Sadismo e Masoquismo. O BDSM liga-se ainda ao fetichismo. O que define a prática é que ela seja sempre consentida, e a análise do discurso BDSM e sua comparação com definições psiquiátricas históricas indicam o papel central que a noção naturalizada do consentir desempenha no argumento de legitimação. Contudo, o BDSM aciona um ideal implícito de enamoramento que associa consentimento aos sentimentos de confiança, entrega e um “perder-se no outro”, típicos da experiência amorosa. A hipótese, a ser desenvolvida em tese de doutorado, é que a escolha em participar de tais atividades justifique-se através do atributo “consciente” da vontade expresso pelo consentimento, mas que é principalmente a dimensão moral e afetiva que negocia o mecanismo de exercício do livre-arbítrio. O campo dos sentimentos, com sua linguagem essencializada do espiritual e do imponderável, é uma maneira possível de dar forma aceitável e comunicável à submissão ao perigo. |