| Esta comunicação propõe um diagnóstico da atuação do governo brasileiro junto a minorias étnicas, sobremodo os povos indígenas no país, tomando como foco a atuação da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) no Vale do Javari, região do sudoeste amazônico. A sociedade civil vem amiúde chamando o governo a prestar contas de sua atuação duvidosa na dita região, das poucas no mundo onde as hepatites virais de alta letalidade (tipo B e D) são endêmicas. A resposta é recorrente. O discurso oficial se esconde por detrás de números, números que operam numa linguagem excludente do que se entende por medicina tradicional. A interferência da medicina alopática é vista num território exclusivo, aquele que exclui os "conhecimentos dos pajés". Trata-se de um discurso que coloca a saúde numa posição do tipo "estamos fazendo a nossa parte". Mas a parte que cabe à saúde é vista como o que é exclusivamente próprio à saúde ocidental. Esta comunicação propõe uma apropriação mútua dos saberes médicos, entre o indígena e o alopático. Do contrário, a ação em saúde será tal como a economia e a religião, ou mesmo como as próprias afecções de que trata: mais instrumentos na história da colonização do Vale do Javari. Propomos que a medicina científica migre para aldeia no lugar dos próprios profissionais de saúde. Propomos, em suma, "desmaterializar" ou "descoisificar", ou ainda "desmonetarizar" a questão da saúde indígena: o que está em jogo é mais que a mera sobrevivência física dos povos em questão. Tratar-se-ia, pois, de reinverter os valores que ora direcionam a saúde indígena. Mais que prontuários individuais, precisamos de prontuários sócio-culturais. Mais que obedecer às orientações da FUNASA, precisamos atentar para as orientações dos ÍNDIOS. |