| A depressão é uma doença recente. Tratada por alguns especialistas como a “epidemia dos nossos tempos”, o termo passa a designar, a partir da década de 50 do século passado, uma variedade de transtornos comportamentais relacionados a déficits de humor, não associados, até então, a qualquer patologia específica. O objetivo deste trabalho é acompanhar etnograficamente, a partir de dados colhidos junto a médicos e pacientes residentes em Belo Horizonte, alguns usos (e abusos) de uma das mais populares e controversas proposições de cura para a doença, a saber, aquela que se dá através da intervenção de medicamentos. Se, por um lado, o investimento na criação e popularização desses agentes não-humanos foi essencial para a estabilização da psiquiatria enquanto um ramo da medicina alopática, a falta de precisão conceitual em torno dos chamados distúrbios de humor (na medida em que seus diagnósticos baseiam-se, principalmente, em relatos pessoais conduzidos pelos médicos), fornece um lastro para a crescente circulação dos antidepressivos em áreas outras que não a psiquiatria, que vão da ginecologia à clínica geral. Prescritas por profissionais de diferentes áreas (ou seja, a partir de diferentes critérios), as mesmas substâncias podem ter diferentes impactos e significados para os pacientes, modificando as percepções que têm de si mesmos, bem como interferindo em sua maneira de lidar com as mais diversas situações cotidianas. Pode-se dizer que o remédio, ao ‘escapar’ de sua área de o |