| Porquê os coletivos produzem tantos sons, fazendo do silêncio uma situação inatingível? É impossível pensar qualquer coletividade seja ela entre humanos e não humanos, humanos e humanos, não humanos e não humanos em que não haja um maquinário e, ou, um arsenal maquínico sonoro. Se as coletividades produzem paisagens, espaços, lugares e tempos, não é de se admirar que produzam também verdadeiras paisagens sonoras. Dois coletivos serão o eixo central neste texto, os pássaros, por um lado, com seus sons, cantos, gritos, gestos e, por outro, sociedades, que, de uma maneira mais explícita são agenciadas por esses seres através de intensos e complexos devires animais. Nestes processos, a música (pelo menos aquilo em que nossa sociedade traduz como música) possui um lugar fundamental. Nos complexos ameríndios, ou, “sociedades do devir” como ficaram conhecidas, os cantos, os complexos de flautas sagradas, são artifícios muito comuns para se assumir uma posição vicária, para ter, dentro de si a voz de “outrem”, para as metamorfoses, transformações, para, em suma, colocar diferentes coletivos em relação, posição e perspectiva. Tentarei analisar mais de perto, a relação entre humanos e pássaros, através da música no contexto ameríndio, e, se possível no contexto dos pássaros, tendo em vista a importância que os sons produzidos por estes possibilitam, e muito, a passagem e a transmutabilidade de um coletivo para o outro. |