| Este trabalho ocupa-se da rede arte/imagem que organiza, registra e recompõe a memória social entre os Baniwa do Alto Rio Negro, tendo como principal objeto de estudo os petroglifos ao longo do rio Içana. A autoria de tais signos gravados nas pedras, quase sempre em ‘lugares sagrados’ e cachoeiras onde importantes eventos ocorreram, é atribuída ao herói-criador Ñapirikoli. Os desenhos são destinados a: i) mostrar aos walimanai (as novas gerações) como era o mundo primordial; ii) registrar ensinamentos sobre técnicas diversas (caça, cestarias); e iii) apontar modos de comportamento que devem guiar os Baniwa. A relação da memória social com as imagens das pedras não é tão clara como aquelas estabelecidas com narrativas orais e outros ‘textos’, e são poucos os instrumentos metodológicos de análise que nos permitem reconstrui-la e compreendê-la. Esta pesquisa tem como base teórica a semiótica de Charles Sanders Peirce, bem como as noções de agência (Bruno Latour, Alfred Gell), da Arte da Memória (Carlo Severi) e de pessoa distribuída (Alfred Gell), assumindo como pano de fundo o perspectivismo ameríndio (Viveiros de Castro). As questões que se impõem remetem à vida social dos signos e às relações entre oralidade, memória e suporte material, isto é, ao lugar desses elementos não-humanos (signos, paisagens-escrituras) na rede social dos Baniwa que, em sua maioria, são hoje evangélicos. |