Resumo

Graças à proximidade biológica com o humano, os grandes símios (gorilas, chimpanzés, bonobos e oragotangos) têm ocupado um lugar de destaque nos estudos cognitivos, dos trabalhos seminais de Ladygina-Kohts em Moscou, no início do século XX, aos mais recentes, no Max-Planck Institute, Leipzig, e no Ai-project, de Kyoto. Na tradição representacionalista das ciências cognitivas, o olhar sobre os símios revela velhos resultados: comportamentos causados por cognições específicas e cognições causadas por corpos específicos, distinções concebidas de modo independente das relações estabelecidas entre o observador e o “sujeito”. O outro símio, contrastado com a cognição humana, desempenha papel semelhante ao outro humano em constraste à racionalidade ocidental, pois se se reconhecem visões distintas do mundo, apenas as últimas representariam, com acuidade, esse mesmo mundo. Propomos, com a filósofa Vinciane Despret, o modelo de ciência baseado na versão, que permite dar conta da co-existência múltipla de formas de conhecimento, no lugar da idéia de visão: distintas perspectivas de “coisas-em-si” a partir de um mesmo referente. Aplicado à investigação de cognições não-humanas, permitir o surgimento de outras versões é reconhecer que corpos e cognições surgem na atividade laboratorial como resultado da afetação mútua de símios, investigadores humanos e mundo: uma ecologia de corpos em devir, cuja versão resultante está prenhe de implicações políticas, tanto ou mais que epistemológicas.