Resumo

O propósito desse trabalho é descrever o “Caso Marie Curie” sob o signo do acontecimento - como a luta desigual a favor de uma ciência foi suscitada pela possibilidade de afirmar “isso é científico”. A proposta consiste numa ficção “etno-historiográfica” da primeira controvérsia científica em que Marie Curie se envolveu, suscitada pela hipótese da existência da radioatividade e de novos elementos químicos em 1898. Por meio das discordâncias científicas, minha pretensão é explorar como a Academia de Ciências (exclusivamente masculina) reagiu ao dispositivo experimental daquela mulher, constituindo inúmeras barreiras para sua produção científica; e como, “em nome da radioatividade”, as relações de poder foram deslocadas fazendo Marie Curie povoar territórios até então obliterados para o feminino. Desse modo, reafirmo a composição singular do “Caso Marie Curie” torna inseparável dois domínios: tanto o envolvimento das relações de gênero na produção científica, quanto o envolvimento da ciência nas relações de gênero. A porta de entrada, para tal empreitada, serão as mediações entre as relações de gênero e os não-humanos mobilizados nos laboratórios envolvidos na controvérsia. A partir destas mediações descrevo a diferença de possibilidades masculino/feminina em fazer-existir a Natureza em relação ao poder que a definição de gênero dá a uns em detrimento de outros, mas também, como a radioatividade faz passar um devir que faz gaguejar essa relação, mudando-a de sentido.