| Provocado pela estimulante proposta deste GT, gostaria de levantar considerações sobre a noção de estabilização ou estabilidade – tal como aparece nos processos dos laboratórios de ciências (ou especialmente em biologia e química, áreas de meu campo etnográfico no doutoramento em curso) e mesmo na terminologia geral da modernidade. Seria contrapô-la dialeticamente à noção de instabilização ou instabilidade, esta que parece central no entendimento do fluxo de relações em composição interminável pelos mais diversos agentes – aí humanos e não-humanos. Tratar-se-ia de escolher entre uma e outra imagem de mundo ou tentar considerá-las simultaneamente, simetricamente? Ou, em resumo, que papel jogam os esforços e sucessos da estabilidade moderna (sob o foco pragmático das ciências em ação) na composição do social? De fato, o estável e o instável não são realidades simultaneamente criadas? Se é assim, como pois considerar a ambas no plano teórico mas sempre sob indução etnográfica? Semelhantes questões, face aos processos de laboratório que investigo etnograficamente há dois anos, parecem reverberar pontos que venho levantando e perseguindo em minha tese de doutoramento – esta que atualmente finaliza campo etnográfico, sobretudo atento à chamada pesquisa básica, no Instituto Butantan, São Paulo. Refiro-me à produtividade e às dificuldades do que chamo os recintos de laboratório, bem como aos agentes que compõem os meios ou soluções a partir dos quais os materiais de interesse, na relação com aqueles, são ordinariamente purificados e isolados. Observo que, de tão expostos, esses agentes do meio, por assim dizer, acabam sendo eclipsados, tidos e tratados então como dados técnicos ordinários – encarados, justamente, como dado. Mas que, no entanto, atuam sem aparecer – como oficiosamente (para aqui lembrar a análise de Latour sobre a separação entre oficial e oficioso constitutiva da modernidade). Como fossem tão óbvios e evidentes, conforme entendo, acabam por não merecer interesse. Por minha parte, entretanto, tenho interrogado precisamente as razões dessa invisibilidade que parece cercar os agentes dos meios e soluções – agentes super-domesticados nos experimentos controlados. Tais agentes do “meio” – de reagentes a solventes, de soluções a tampão –, quando homogeneizados em estado líquido (justamente o meio), ensejam as vislumbradas purificações. Questão sumária: quais as relações entre esses diferentes estatutos de agentes, os “de interesse” e os de “meio”? Por fim, essa dialética do estável e do instável, quer me parecer, envia a uma leitura menos substancialista e mais relacionalista de Charles Darwin e, por conseqüência, do próprio modo naturalista da modernidade. Abordá-la será inevitável no âmbito desta proposta |