Resumo

Nas últimas décadas a prática da transfusão sangüínea tornou-se corrente entre nós. O processo laboratorial que leva o sangue do doador ao receptor não é simples, sendo da competência de um número reduzido de profissionais altamente qualificados. Ainda assim, para que o sangue e seus derivados circulem nos corpos e em nossas sociedades é preciso levar em conta esquematismos simbólicos os mais variados. Essa disseminação das práticas de transfusão estão ainda envoltas em uma série de controvérsias técnicas, políticas, morais e econômicas. Este trabalho, que é parte de uma pesquisa em andamento, tem por objetivo compreender melhor o processo pelo qual o sangue é colocado em circulação social. De modo mais específico, trata-se de realizar uma “etnografia do sangue” que busque acompanhar o movimento deste para fora dos corpos dos doadores, bem como as associações e as modificações que se fazem necessárias para que ele circule em outros corpos. Minha hipótese é que o sangue não circula socialmente sem mobilizar uma variedade de agentes humanos e não humanos que o transformam de modo radical, e que o transformam para que ele continue sendo sangue. Em suma, trata-se de entrar na rede de circulação social do sangue procurando acompanhá-lo nas veias e artérias de todo um complexo esquema montado em torno da técnica da transfusão. Este trabalho pretende apresentar os resultados alcançados até o momento por esta etnografia do sangue.